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O jornalismo que existe hoje precisa morrer

“Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas memórias póstumas”
― Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas


Rodrigo Brancatelli

“Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas memórias póstumas”
― Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas
O título correto seria “o jornalismo que existe hoje precisa morrer porque é a única forma de encontrar um novo caminho no mundo digital.” Só que ia ficar muito longo e talvez você não fosse clicar — ainda assim, a morte é inevitável, talvez até saudável. Explico.

Antes de tudo, vale dizer de antemão: o futuro não é o jornalismo digital. Existe apenas o jornalismo, ponto final. O digital é o meio que os jornalistas precisam absorver e dominar completamente para poder fazer o que a sociedade espera deles — e o papel dos jornalistas como contrapoder continua a ser indispensável. O grande problema aqui é que muitos jornalistas ainda não assimilaram a ideia de que já não possuem o monopólio da informação.

Sejamos sinceros, somos uma classe conservadora e corporativa que tarda em reagir às mudanças do mundo. Criticamos quase todo mundo, mas somos muito ruins em fazer autocrítica. Só que o jogo mudou — e não dá para continuar jogando com técnicas defasadas e inúteis. Estamos tentando jogar Call of Duty no Playstation mais moderno que existe com um controle velho de Atari — e ainda culpamos o game por estarmos falhando.

“Há uma queda no número de leitores de jornais? Ah, então vamos investir no site! Não temos tráfego no site? Ah, então vamos fazer campanhas pagas no Facebook! O Facebook não está tendo o alcance de antes? Ah, vamos para o Instagram! Não funcionou? Ah, vamos mudar para vídeos, vamos ganhar dinheiro com anúncios no Youtube! Nada ainda? Ah, então contrata alguém aí que saiba o que é um tal de TikTok, minha filha está viciada nisso!”

Esse jornalismo reativo às mudanças tecnológicas que não tem um norte verdadeiro precisa morrer.

Como já foi dito por muitos especialistas, a primeira crença dos editores de jornais e revistas frentes à queda de receitas é de que a tecnologia liberta. Não é verdade — a tecnologia é só um mar a ser desbravado; o problema é que o jornalismo está demasiadamente embriagado com o progresso tecnológico, sem saber como tomar controle do seu barco.

Acima de tudo, é preciso entender como essas tecnologias realmente funcionam para poder moldá-las — fazendo que que elas funcionem para o bem do Jornalismo. Por mais que você reclame do algoritmo do Google ou do Facebook, o futuro pertence à eles (seja lá como serão os algoritmos em 20 ou 30 anos, eles estarão lá). O que precisamos é de jornalistas que pensem como engenheiros ou cientistas de dados e que saibam treinar os algoritmos para encontrar o meio-termo correto entre engajamento e informação. Algoritmos não são bons ou maus — eles são apenas um conjunto de regras que alguém escreveu com alguma métrica em mente para influenciar e determinar comportamentos e culturas. Os jornalistas precisam fazer parte deste processo — sejam em plataformas existentes ou em novas startups de comunicação.

Se os jornalistas não estão ali escrevendo ou moldando esses algoritmos, nada vai mudar — continuaremos reféns de grandes empresas que não se preocupam com o papel da informação de qualidade. Acima de tudo, jornalistas não podem só apurar e escrever: é preciso saber como disseminar a informação. E sem um controle total desse funil, nada vai mudar — continuaremos correndo atrás do novo site que traz tráfego para pagar as contas do mês e tentar continuar sobrevivendo. 

Também é preciso entender que as pessoas continuarão clicando em fake news, em matérias sensacionalistas ou reportagens sobre Caetano Veloso cruzando uma rua no Leblon — isso faz parte da natureza humana, deal with it. Você, jornalistão que só lê Proust em francês porque não quer perder nada do texto original, também clica em um monte de porcaria na internet quando está entendiado. Deus tá vendo... O que é necessário é aumentar a oferta. Não é por menos que muitas matérias investigativas hoje estão sendo publicadas por sites que antes eram considerados “alternativos”. O pão e circo vai continuar, não adianta reclamar — nossa responsabilidade como jornalistas é alargar a oferta. 

A tecnologia e os algoritmos precisam absorver os jornalistas, e os jornalistas precisam estar dispostos e preparados para isso. O Google ou o Facebook só vão colocar no topo do seu feed fontes primárias e confiáveis se jornalistas estiverem ali treinando esse algoritmo. Já as velhas e novas empresas de jornalismo só vão descobrir novas fontes de receitas se tiverem total controle da distribuição do seu conteúdo — e de como esse esse consumo é mensurado e metrificado. O primeiro passo para uma mudança profunda é refazer completamente a grade curricular das universidades. Lembro que quando me formei, uma das minhas melhores notas foi da aula de revelação de fotos… Hoje nas faculdades de Jornalismo, além de desenvolverem seus sensos críticos, os alunos precisam aprender a criar produtos jornalísticos. Precisam saber como identificar e até criar novas métricas. Como gerir produtos. Como tirar proveito de machine learning… Um novo jornalista precisa sair da universidade, alguém pronto para lidar com desafios que os profissionais de hoje não têm ideia do que fazer.

Como escrevi aqui, algumas coisas estão sim ao nosso alcance. Uma coisa que une todos esses veículos de comunicação hoje em dia — do pequeno Influencer no Instagram ao jornalão — é que falta um planejamento a longo prazo para entender como adquirir dados e informações de seus leitores, criar comunidades interessadas, descobrir modos de crescer o bolo e encontrar novas formas de monetização. Há muito que experimentar, e muitas boas ideias sendo formalizadas — sempre tendo por trás a ideia de criar comunidades, agregar dados, ter sua própria plataforma e usar todas essas informações para criar novas formas de monetização. Um exemplo são os "streamers" do Twitch — um streamer do Twitch ganha por volta de US$ 3 mil a US$ 5 mil por mês transferindo conteúdo de jogos. Os maiores fazem mais de US$ 100 mil por ano. Ainda não é algo perfeito, obviamente, mas algo está funcionando.

Os dados estão aí — é só conectar as pontas que estão soltas para distribuir o conteúdo relevante para o público certo. Com todos os dados que a Folha ou o Estadão ou a Abril possuem, por exemplo, por que não criar comunidades em torno de assuntos em comum? Assim, os leitores poderão se conectar porque elas têm o mesmo objetivo profissional, ou elas vivem perto umas das outras, ou têm os mesmos interesses ou gostam dos mesmos tópicos. Juntar as pessoas e fazer conexões que elas não fariam de outra forma é uma das experiências mais relevantes que um produtor de conteúdo pode construir — seja um Influencer no Instagram ou seja o Estadão. E comunidades criam oportunidades de monetização. Além de todas as coisas boas que fazem as pessoas voltarem – ótimas conteúdo e pessoas para conhecer, conversar e aprender – muitas comunidades também oferecem oportunidades de pagamento — seja por meio de assinaturas, patrocínios, ingressos para eventos ou cursos online, você pode ganhar um pouco (ou muito) de dinheiro extra. Isto significa que você terá mais tempo ou recursos para investir na sua marca/comunidade e torná-la mais forte. Quando você constrói algo valioso que as pessoas amam, elas pagam por isso. Este é um dos bônus de escolher este caminho.

Quebrar o hábito do engajamento de fãs nas Páginas e Grupos do Facebook ou mesmo posts no Instagram é o primeiro passo para uma estratégia de engajamento melhor, mais eficaz e mais barata. Aqueles empreendedores mais astutos já entenderam que o Facebook/Instagram é ótimo para aquisição continuada, mas quanto mais rápido você puder levar seu engajamento para fora do Facebook, melhor — porque assim você controla os dados e o comportamento desses usuários.

Mas à essa altura do campeonato, isso ainda é o básico a ser feito: é preciso ser mais drástico para enfrentar as próximas mudanças tecnológicas — e não adianta reclamar, elas virão. O novo Jornalismo só vai ser criado se o velho aceitar seu declínio. Se a derrocada dos jornais impressos é inevitável, por exemplo, quem achar que basta criar um site para colocar no lugar vai acabar indo para a mesma cova. 

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