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Aposentadoria: por que pensar em soluções diferentes?

É necessária uma mudança de mentalidade e de percepção do desafio da longevidade e das novas formas e relações de trabalho - foto: Pixabay
É necessária uma mudança de mentalidade e de percepção do desafio da longevidade e das novas formas de relações de trabalho

Carlos Teixeira
Jornalista I Futurista

“É necessária uma mudança de mentalidade e de percepção do desafio da longevidade e das novas formas e relações de trabalho. Vai ser cada vez mais importante a poupança individual e o esforço próprio para custear as necessidades dos brasileiros durante o período de aposentadoria”. A defesa de novas abordagens na discussão do tema da aposentadoria é do professor Luiz Eduardo Afonso, do Departamento de Contabilidade e Atuária da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo.

O alerta é de fato essencial. A sociedade continua buscando soluções para o grande dilema do futuro a partir de soluções que levam em conta paradigmas de uma sistema produtivo que tende ao esgotamento diante da quarta revolução industrial. Ou revolução digital. Com a tecnologia como protagonista de transformações, o emprego não será o mesmo, assim como a remuneração, o local de trabalho e as perspectivas das profissões.

Diante do quadro repleto de incertezas, o professor da USP levou a uma audiência pública sobre previdência complementar, promovida pelo governo federal em maio, uma proposta desenvolvida por um grupo de pesquisadores do México. Os mexicanos publicaram um estudo sobre a chamada Miles of Retirement (em tradução livre, milhas para a aposentadoria). “Nós usamos o prazer de gastar ao invés da dor de economizar”, dizem eles.

Milhagem

“Já pensou em economizar comprando?”, diz Luis Eduardo Afonso, que defende um modelo semelhante ao de milhas, usado pelas companhias aéreas. A compra de determinados produtos é revertida em benefícios para a aposentadoria.

“Você faz uma coisa hoje e, ao mesmo tempo, ajuda a sua aposentadoria lá na frente”, resume Luis Eduardo Afonso. Segundo ele, o consumidor, no papel de poupador para o futuro, “poderia trocar, por exemplo, por um determinado valor no seu plano de previdência”.  Afonso acredita que a ideia é perfeitamente aplicável no Brasil.

“Eu acho que existe muito espaço para soluções inovadoras. A gente tem sido quase atropelado pelo tanto de inovação que tem aparecido, como abrir conta sem precisar ir no banco e o cartão eletrônico”, diz, e acrescenta: “Acho que temos que estar de olho aberto porque temos novas relações de trabalho e novas necessidades. Pessoas com perfis distintos demandarão produtos distintos”.

Desequilíbrios

Os debates sobre financiamento da previdência social precisam passar pela compreensão de que há uma mudança mais geral de modelo. “A reforma da previdência pública vai ocorrer em algum momento, é inexorável, pois se nada for feito o sistema quebra”, avalia a demógrafa Simone Wajnman, professora do Departamento de Economia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Para a professora, não há dúvidas de que a idade mínima da aposentadoria terá de subir. Entre as forças que justificam a tese, o destaque é para o envelhecimento da população. A expectativa de vida é crescente, o que impacta a “razão de dependência”, que é a relação entre o número de trabalhadores e o número de idosos e crianças sustentados por eles, mesmo com a perspectiva de queda das taxas de natalidade.

A mudança demográfica apoia a tese de que não há dúvidas de que a idade média das aposentadorias tem de subir. O desequilíbrio é real. As pessoas que estão se aposentando vêm de famílias grandes. Agora, os jovens pertencem a famílias de menor tamanho, o que amplia a projeção de desequilíbrio. Para Simone Wajnman há duas soluções evidentes. Ou se aumenta a base produtiva, com um maior número de pessoas trabalhando, ou investimentos são realizados com o objetivo de aumentar a produtividade, algo que o pais vem demonstrando incapacidade de realizar.

Cenário preocupante

Como convencer o administrador de empresas Carlos Alberto da Rocha a não se aposentar agora, aos 58 anos? Além de requisitos para a aposentadoria integral, incluindo tempo de contribuição e de trabalho, ele também apresenta as condições ideais de cuidados e de genética para se manter ativo, com ótima qualidade de vida, pelos próximos 30 anos. Recentemente, uma tia de sua mãe, de 87 anos, completou 100 anos, com grande disposição.

Este é, para a demógrafa Simone Wajnman uma grande parte do desafio que vai contaminar a capacidade de sobrevivência da própria previdência. Um dos motivos para Carlos Alberto resolver entrar com o pedido de aposentadoria é a possibilidade de ser despedido em breve, pois o hospital onde trabalha tem preferido absorver pessoas mais jovens, com custos menores e maior atualização com as tecnologias.

“Há um cenário complexo”, assinala a demógrafa. No final das contas, a sustentação de todo o sistema é precária. Jovens como Bruno, o filho do próprio administrador Carlos Alberto, se sustentam em empregos precários. A realidade é que, no cenário atual da economia brasileira, que passa por uma profunda desregulamentação das relações de produção, a informalidade e a precariedade são crescentes. Afetam especialmente os 25% dos jovens, que convivem com o desemprego. Repensar estratégias de sobrevivência será essencial, de fato.

 

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