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Tudo pela carteirada

Os votos dos ministros do Supremo Tribunal Federal contra a exigência do diploma para a prática do jornalismo como profissão fizeram tocar com maior intensidade, a partir de 17 de junho, os telefones dos sindicatos dos jornalistas em todo o país. Do outro lado da linha, pessoas interessadas em conhecer os caminhos para a inscrição na entidade como novos membros da categoria. Foram inúmeros os candidatos à profissão recém-desregulamentada, graças à decisão "exarada" pela turma do ministro Gilmar Mendes.

Não pense o cidadão comum, talvez pouco informado pelas intervenções de parte da grande imprensa, que a demanda pelo registro sindical reflita uma preocupação especial das pessoas interessadas com a democratização da informação, com a mobilização da categoria ou com o fortalecimento da profissão. Nada disso. Até muito ao contrário. A vontade de ter acesso ao sindicato tem como meta a obtenção de dois singelos papéis: as carteiras Nacional e Internacional de Jornalista. Os documentos de identificação profissional são os principais ou únicos alvos de parte considerável dos que ligaram para as entidades, em busca das informações. Houve até mesmo quem já apareceu no sindicato mineiro com disposição para briga, com o objetivo de assegurar a carteirinha com a maior agilidade possível. Ou quem se dispôs a pagar caro para obter, com urgência, a versão internacional.

Resta entender o real significado da iniciativa de quem pleiteia a carteira. Alguns talvez queiram regularizar a situação em pequenos jornais de interior ou de bairros, ganhando alguma legitimidade que compense os baixos salários pagos. Outros, fracassados ou frustrados com suas profissões, procurarão uma compensação, um "bico", como se dizia antigamente, na ilusão de que o documento abrirá novas portas.

A palavra "fetiche" define o desejo dos postulantes à sindicalização. Do latim facticius, que gerou, no francês, fétiche, e feitiço, no português, fetiche significa artificial, fictício. Algo a que se atribui poderes mágicos ou sobrenaturais, positivos ou negativos. Para quem pede, o documento emitido pela Federação Nacional dos Jornalistas, por meio das entidades estaduais, com valor legal, é o próprio fetiche, a representação de uma chave da felicidade, hipoteticamente capaz de abrir portas.

Na prática, a decisão do Supremo, baseada em argumentos superficiais à favor da democratização do acesso à informação, presta para a reificação da tradição da carteirada, comum à sociedade brasileira e largamente utilizada por alguns membros do legislativo e do judiciário, inclusive representantes das altas cortes. Entre os tantos que entram com o pedido da carteira de jornalista, todo o interesse se concentra na instituição do "sabe com quem está falando?".

O mesmo Supremo, formado por membros eleitos indiretamente como "xerifes" da Constituição, e que nunca condenou sequer um deputado ou senador, favorece, com a desregulamentação que se pretende impor a outras profissões, a expansão da prática da carteirada. Brevemente, os sindicatos poderão até mesmo ser processados e punidos por recusar a entrega do documento de identificação para pessoas sem qualificação profissional ou vínculos com a atividade. Muitos dos que agora querem a carteira sonham apenas com a possibilidade de entrar em estádios, frequentar shows, "tietar" artistas, impressionar pessoas. Não faltarão aqueles que, com o documento, ganharão o álibe para chantagear empresários e políticos.

"Voltamos agora à pré-história do jornalismo brasileiro, quando os donos de jornais davam carteiras de jornalistas” para os empregados e diziam: agora você já é jornalista, pode ir buscar o salário lá fora”, recorda Laurindo Lalo Leal Filho, sociólogo e jornalista, professor de Jornalismo da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, em artigo publicado no site Carta Maior. Segundo o professor, se o “jornalista” tivesse algum pudor iria ganhar seu dinheiro em outra profissão trabalhando no jornal por diletantismo. Se não tivesse iria usar do seu espaço para ameaçar pessoas, em troca de remuneração. Era o chamado achaque que, obviamente não era generalizado mas que constrangia os jornalistas idôneos.

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